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Capítulo 01

1HAVIA um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; e era este homem íntegro, reto e temente a Deus e desviava-se do mal.

2E nasceram-lhe sete filhos e três filhas.

3E o seu gado era de sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas; eram também muitíssimos os servos a seu serviço, de maneira que este homem era maior do que todos os do oriente.

4E iam seus filhos à casa uns dos outros e faziam banquetes cada um por sua vez; e mandavam convidar as suas três irmãs a comerem e beberem com eles.

5Sucedia, pois, que, decorrido o turno de dias de seus banquetes, enviava Jó, e os santificava, e se levantava de madrugada, e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles; porque dizia Jó: Talvez pecaram meus filhos, e amaldiçoaram a Deus no seu c

6E num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o SENHOR, veio também Satanás entre eles.

7Então o SENHOR disse a Satanás: Donde vens? E Satanás respondeu ao SENHOR, e disse: De rodear a terra, e passear por ela.

8E disse o SENHOR a Satanás: Observaste tu a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal.

9Então respondeu Satanás ao SENHOR, e disse: Porventura teme Jó a Deus debalde?

10Porventura tu não cercaste de sebe, a ele, e a sua casa, e a tudo quanto tem? A obra de suas mãos abençoaste e o seu gado se tem aumentado na terra.

11Mas estende a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema contra ti na tua face.

12E disse o SENHOR a Satanás: Eis que tudo quanto ele tem está na tua mão; somente contra ele não estendas a tua mão. E Satanás saiu da presença do SENHOR.

13E sucedeu um dia, em que seus filhos e suas filhas comiam, e bebiam vinho, na casa de seu irmão primogênito,

14Que veio um mensageiro a Jó, e lhe disse: Os bois lavravam, e as jumentas pastavam junto a eles;

15E deram sobre eles os sabeus, e os tomaram, e aos servos feriram ao fio da espada; e só eu escapei para trazer-te a nova.

16Estando este ainda falando, veio outro e disse: Fogo de Deus caiu do céu, e queimou as ovelhas e os servos, e os consumiu, e só eu escapei para trazer-te a nova.

17Estando ainda este falando, veio outro, e disse: Ordenando os caldeus três tropas, deram sobre os camelos, e os tomaram, e aos servos feriram ao fio da espada; e só eu escapei para trazer-te a nova.

18Estando ainda este falando, veio outro, e disse: Estando teus filhos e tuas filhas comendo e bebendo vinho, em casa de seu irmão primogênito,

19Eis que um grande vento sobreveio dalém do deserto, e deu nos quatro cantos da casa, que caiu sobre os jovens, e morreram; e só eu escapei para trazer-te a nova.

20Então Jó se levantou, e rasgou o seu manto, e rapou a sua cabeça, e se lançou em terra, e adorou.

21E disse: Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o SENHOR o deu, e o SENHOR o tomou: bendito seja o nome do SENHOR.

22Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma.

Capítulo 02

1E, VINDO outro dia, em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o SENHOR, veio também Satanás entre eles, apresentar-se perante o SENHOR.

2Então o SENHOR disse a Satanás: Donde vens? E respondeu Satanás ao SENHOR, e disse: De rodear a terra, e passear por ela.

3E disse o SENHOR a Satanás: Observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal, e que ainda retém a sua sinceridade, havendo-me tu incitado contra ele, para o consumir sem c

4Então Satanás respondeu ao SENHOR, e disse: Pele por pele, e tudo quanto o homem tem dará pela sua vida.

5Porém estende a tua mão, e toca-lhe nos ossos, e na carne, e verás se não blasfema contra ti na tua face!

6E disse o SENHOR a Satanás: Eis que ele está na tua mão; porém guarda a sua vida.

7Então saiu Satanás da presença do SENHOR, e feriu a Jó de úlceras malignas, desde a planta do pé até ao alto da cabeça.

8E Jó tomou um caco para se raspar com ele; e estava assentado no meio da cinza.

9Então sua mulher lhe disse: Ainda reténs a tua sinceridade? Amaldiçoa a Deus, e morre.

10Porém ele lhe disse: Como fala qualquer doida, falas tu; receberemos o bem de Deus, e não receberíamos o mal? Em tudo isto não pecou Jó com os seus lábios.

11Ouvindo, pois, três amigos de Jó todo este mal que tinha vindo sobre ele, vieram cada um do seu lugar: Elifaz o temanita, e Bildade o suíta, e Zofar o naamatita; e combinaram condoer-se dele, para o consolarem.

12E, levantando de longe os seus olhos, não o conheceram; e levantaram a sua voz e choraram, e rasgaram cada um o seu manto, e sobre as suas cabeças lançaram pó ao ar.

13E assentaram-se com ele na terra, sete dias e sete noites; e nenhum lhe dizia palavra alguma, porque viam que a dor era muito grande.

Capítulo 03

1DEPOIS disto abriu Jó a sua boca, e amaldiçoou o seu dia.

2E Jó, falando, disse:

3Pereça o dia em que nasci, e a noite em que se disse: Foi concebido um homem!

4Converta-se aquele dia em trevas; e Deus, lá de cima, não tenha cuidado dele, nem resplandeça sobre ele a luz.

5Contaminem-no as trevas e a sombra da morte; habitem sobre ele nuvens; a escuridão do dia o espante!

6Quanto àquela noite, dela se apodere a escuridão; e não se regozije ela entre os dias do ano; e não entre no número dos meses!

7Ah! que solitária seja aquela noite, e nela não entre voz de júbilo!

8Amaldiçoem-na aqueles que amaldiçoam o dia, que estão prontos para suscitar o seu pranto.

9Escureçam-se as estrelas do seu crepúsculo; que espere a luz, e não venha; e não veja as pálpebras da alva;

10Porque não fechou as portas do ventre; nem escondeu dos meus olhos a canseira.

11Por que não morri eu desde a madre? E em saindo do ventre, não expirei?

12Por que me receberam os joelhos? E por que os peitos, para que mamasse?

13Porque já agora jazeria e repousaria; dormiria, e então haveria repouso para mim.

14Com os reis e conselheiros da terra, que para si edificam casas nos lugares assolados,

15Ou com os príncipes que possuem ouro, que enchem as suas casas de prata,

16Ou como aborto oculto, não existiria; como as crianças que não viram a luz.

17Ali os maus cessam de perturbar; e ali repousam os cansados.

18Ali os presos juntamente repousam, e não ouvem a voz do exator.

19Ali está o pequeno e o grande, e o servo livre de seu senhor.

20Por que se dá luz ao miserável, e vida aos amargurados de ânimo?

21Que esperam a morte, e ela não vem; e cavam em procura dela mais do que de tesouros ocultos;

22Que de alegria saltam, e exultam, achando a sepultura?

23Por que se dá luz ao homem, cujo caminho é oculto, e a quem Deus o encobriu?

24Porque antes do meu pão vem o meu suspiro; e os meus gemidos se derramam como água.

25Porque aquilo que temia me sobreveio; e o que receava me aconteceu.

26Nunca estive tranqüilo, nem sosseguei, nem repousei, mas veio sobre mim a perturbação.

Capítulo 04

1ENTÃO respondeu Elifaz o temanita, e disse:

2Se intentarmos falar-te, enfadar-te-ás? Mas quem poderia conter as palavras?

3Eis que ensinaste a muitos, e tens fortalecido as mãos fracas.

4As tuas palavras firmaram os que tropeçavam e os joelhos desfalecentes tens fortalecido.

5Mas agora, que se trata de ti, te enfadas; e tocando-te a ti, te perturbas.

6Porventura não é o teu temor de Deus a tua confiança, e a tua esperança a integridade dos teus caminhos?

7Lembra-te agora qual é o inocente que jamais pereceu? E onde foram os sinceros destruídos?

8Segundo eu tenho visto, os que lavram iniqüidade, e semeiam mal, segam o mesmo.

9Com o hálito de Deus perecem; e com o sopro da sua ira se consomem.

10O rugido do leão, e a voz do leão feroz, e os dentes dos leõezinhos se quebram.

11Perece o leão velho, porque não tem presa; e os filhos da leoa andam dispersos.

12Uma coisa me foi trazida em segredo; e os meus ouvidos perceberam um sussurro dela.

13Entre pensamentos vindos de visões da noite, quando cai sobre os homens o sono profundo,

14Sobrevieram-me o espanto e o tremor, e todos os meus ossos estremeceram.

15Então um espírito passou por diante de mim; fez-me arrepiar os cabelos da minha carne.

16Parou ele, porém não conheci a sua feição; um vulto estava diante dos meus olhos; houve silêncio, e ouvi uma voz que dizia:

17Seria porventura o homem mais justo do que Deus? Seria porventura o homem mais puro do que o seu Criador?

18Eis que ele não confia nos seus servos e aos seus anjos atribui loucura;

19Quanto menos àqueles que habitam em casas de lodo, cujo fundamento está no pó, e são esmagados como a traça!

20Desde a manhã até à tarde são despedaçados; e eternamente perecem sem que disso se faça caso.

21Porventura não passa com eles a sua excelência? Morrem, mas sem sabedoria.

Capítulo 05

1CHAMA agora; há alguém que te responda? E para qual dos santos te virarás?

2Porque a ira destrói o louco; e o zelo mata o tolo.

3Bem vi eu o louco lançar raízes; porém logo amaldiçoei a sua habitação.

4Seus filhos estão longe da salvação; e são despedaçados às portas, e não há quem os livre.

5A sua messe, o faminto a devora, e até dentre os espinhos a tira; e o salteador traga a sua fazenda.

6Porque do pó não procede a aflição, nem da terra brota o trabalho.

7Mas o homem nasce para a tribulação, como as faíscas se levantam para voar.

8Porém eu buscaria a Deus; e a ele entregaria a minha causa.

9Ele faz coisas grandes e inescrutáveis, e maravilhas sem número.

10Ele dá a chuva sobre a terra, e envia águas sobre os campos.

11Para pôr aos abatidos num lugar alto; e para que os enlutados se exaltem na salvação.

12Ele aniquila as imaginações dos astutos, para que as suas mãos não possam levar coisa alguma a efeito.

13Ele apanha os sábios na sua própria astúcia; e o conselho dos perversos se precipita.

14Eles de dia encontram as trevas; e ao meio dia andam às apalpadelas como de noite.

15Porém ao necessitado livra da espada, e da boca deles, e da mão do forte.

16Assim há esperança para o pobre; e a iniqüidade tapa a sua boca.

17Eis que bem-aventurado é o homem a quem Deus repreende; não desprezes, pois, a correção do Todo-Poderoso.

18Porque ele faz a chaga, e ele mesmo a liga; ele fere, e as suas mãos curam.

19Em seis angústias te livrará; e na sétima o mal não te tocará.

20Na fome te livrará da morte; e na guerra, da violência da espada.

21Do açoite da língua estarás encoberto; e não temerás a assolação, quando vier.

22Da assolação e da fome te rirás, e os animais da terra não temerás.

23Porque até com as pedras do campo terás o teu acordo, e as feras do campo serão pacíficas contigo.

24E saberás que a tua tenda está em paz; e visitarás a tua habitação, e não pecarás.

25Também saberás que se multiplicará a tua descendência e a tua posteridade como a erva da terra,

26Na velhice irás à sepultura, como se recolhe o feixe de trigo a seu tempo.

27Eis que isto já o havemos inquirido, e assim é; ouve-o, e medita nisso para teu bem.

 

Capítulo 06

1ENTÃO Jó respondeu, dizendo:

2Oh! se a minha mágoa retamente se pesasse, e a minha miséria juntamente se pusesse numa balança!

3Porque, na verdade, mais pesada seria, do que a areia dos mares; por isso é que as minhas palavras têm sido engolidas.

4Porque as flechas do Todo-Poderoso estão em mim, cujo ardente veneno suga o meu espírito; os terrores de Deus se armam contra mim.

5Porventura zurrará o jumento montês junto à relva? Ou mugirá o boi junto ao seu pasto?

6Ou comer-se-á sem sal o que é insípido? Ou haverá gosto na clara do ovo?

7A minha alma recusa tocá-las, pois são para mim como comida repugnante.

8Quem dera que se cumprisse o meu desejo, e que Deus me desse o que espero!

9E que Deus quisesse quebrantar-me, e soltasse a sua mão, e me acabasse!

10Isto ainda seria a minha consolação, e me refrigeraria no meu tormento, não me poupando ele; porque não ocultei as palavras do Santo.

11Qual é a minha força, para que eu espere? Ou qual é o meu fim, para que tenha ainda paciência?

12É porventura a minha força a força da pedra? Ou é de cobre a minha carne?

13Está em mim a minha ajuda? Ou desamparou-me a verdadeira sabedoria?

14Ao que está aflito devia o amigo mostrar compaixão, ainda ao que deixasse o temor do Todo-Poderoso.

15Meus irmãos aleivosamente me trataram, como um ribeiro, como a torrente dos ribeiros que passam,

16Que estão encobertos com a geada, e neles se esconde a neve,

17No tempo em que se derretem com o calor, se desfazem, e em se aquentando, desaparecem do seu lugar.

18Desviam-se as veredas dos seus caminhos; sobem ao vácuo, e perecem.

19Os caminhantes de Tema os vêem; os passageiros de Sabá esperam por eles.

20Ficam envergonhados, por terem confiado e, chegando ali, se confundem.

21Agora sois semelhantes a eles; vistes o terror, e temestes.

22Acaso disse eu: Dai-me ou oferecei-me presentes de vossos bens?

23Ou livrai-me das mãos do opressor? Ou redimi-me das mãos dos tiranos?

24Ensinai-me, e eu me calarei; e fazei-me entender em que errei.

25Oh! quão fortes são as palavras da boa razão! Mas que é o que censura a vossa argüição?

26Porventura buscareis palavras para me repreenderdes, visto que as razões do desesperado são como vento?

27Mas antes lançais sortes sobre o órfão; e cavais uma cova para o amigo.

28Agora, pois, se sois servidos, olhai para mim; e vede se minto em vossa presença.

29Voltai, pois, não haja iniqüidade; tornai-vos, digo, que ainda a minha justiça aparecerá nisso.

30Há porventura iniqüidade na minha língua? Ou não poderia o meu paladar distinguir coisas iníquas?

Capítulo 07

1PORVENTURA não tem o homem guerra sobre a terra? E não são os seus dias como os dias do jornaleiro?

2Como o servo que suspira pela sombra, e como o jornaleiro que espera pela sua paga,

3Assim me deram por herança meses de vaidade; e noites de trabalho me prepararam.

4Deitando-me a dormir, então digo: Quando me levantarei? Mas comprida é a noite, e farto-me de me revolver na cama até à alva.

5A minha carne se tem vestido de vermes e de torrões de pó; a minha pele está gretada, e se fez abominável.

6Os meus dias são mais velozes do que a lançadeira do tecelão, e acabam-se, sem esperança.

7Lembra-te de que a minha vida é como o vento; os meus olhos não tornarão a ver o bem.

8Os olhos dos que agora me vêem não me verão mais; os teus olhos estarão sobre mim, porém não serei mais.

9Assim como a nuvem se desfaz e passa, assim aquele que desce à sepultura nunca tornará a subir.

10Nunca mais tornará à sua casa, nem o seu lugar jamais o conhecerá.

11Por isso não reprimirei a minha boca; falarei na angústia do meu espírito; queixar-me-ei na amargura da minha alma.

12Sou eu porventura o mar, ou a baleia, para que me ponhas uma guarda?

13Dizendo eu: Consolar-me-á a minha cama; meu leito aliviará a minha ânsia;

14Então me espantas com sonhos, e com visões me assombras;

15Assim a minha alma escolheria antes a estrangulação; e antes a morte do que a vida.

16A minha vida abomino, pois não viveria para sempre; retira-te de mim; pois vaidade são os meus dias.

17Que é o homem, para que tanto o engrandeças, e ponhas nele o teu coração,

18E cada manhã o visites, e cada momento o proves?

19Até quando não apartarás de mim, nem me largarás, até que engula a minha saliva?

20Se pequei, que te farei, ó Guarda dos homens? Por que fizeste de mim um alvo para ti, para que a mim mesmo me seja pesado?

21E por que não perdoas a minha transgressão, e não tiras a minha iniqüidade? Porque agora me deitarei no pó, e de madrugada me buscarás, e não existirei mais.

Capítulo 08

1ENTÃO respondendo Bildade o suíta, disse:

2Até quando falarás tais coisas, e as palavras da tua boca serão como um vento impetuoso?

3Porventura perverteria Deus o direito? E perverteria o Todo-Poderoso a justiça?

4Se teus filhos pecaram contra ele, também ele os lançou na mão da sua transgressão.

5Mas, se tu de madrugada buscares a Deus, e ao Todo-Poderoso pedires misericórdia;

6Se fores puro e reto, certamente logo despertará por ti, e restaurará a morada da tua justiça.

7O teu princípio, na verdade, terá sido pequeno, porém o teu último estado crescerá em extremo.

8Pois, eu te peço, pergunta agora às gerações passadas; e prepara-te para a inquirição de seus pais.

9Porque nós somos de ontem, e nada sabemos; porquanto nossos dias sobre a terra são como a sombra.

10Porventura não te ensinarão eles, e não te falarão, e do seu coração não tirarão palavras?

11Porventura cresce o junco sem lodo? Ou cresce a espadana sem água?

12Estando ainda no seu verdor, ainda que não cortada, todavia antes de qualquer outra erva se seca.

13Assim são as veredas de todos quantos se esquecem de Deus; e a esperança do hipócrita perecerá.

14Cuja esperança fica frustrada; e a sua confiança será como a teia de aranha.

15Encostar-se-á à sua casa, mas ela não subsistirá; apegar-se-á a ela, mas não ficará em pé.

16Ele é viçoso perante o sol, e os seus renovos saem sobre o seu jardim;

17As suas raízes se entrelaçam, junto à fonte; para o pedregal atenta.

18Se Deus o consumir do seu lugar, negá-lo-á este, dizendo: Nunca te vi!

19Eis que este é a alegria do seu caminho, e outros brotarão do pó.

20Eis que Deus não rejeitará ao reto; nem toma pela mão aos malfeitores;

21Até que de riso te encha a boca, e os teus lábios de júbilo.

22Os que te odeiam se vestirão de confusão, e a tenda dos ímpios não existirá mais.

 

Capítulo 09

1ENTÃO Jó respondeu, dizendo:

2Na verdade sei que assim é; porque, como se justificaria o homem para com Deus?

3Se quiser contender com ele, nem a uma de mil coisas lhe poderá responder.

4Ele é sábio de coração, e forte em poder; quem se endureceu contra ele, e teve paz?

5Ele é o que remove os montes, sem que o saibam, e o que os transtorna no seu furor.

6O que sacode a terra do seu lugar, e as suas colunas estremecem.

7O que fala ao sol, e ele não nasce, e sela as estrelas.

😯 que sozinho estende os céus, e anda sobre os altos do mar.

9O que fez a Ursa, o Órion, e o Sete-estrelo, e as recâmaras do sul.

10O que faz coisas grandes e inescrutáveis; e maravilhas sem número.

11Eis que ele passa por diante de mim, e não o vejo; e torna a passar perante mim, e não o sinto.

12Eis que arrebata a presa; quem lha fará restituir? Quem lhe dirá: Que é o que fazes?

13Deus não revogará a sua ira; debaixo dele se encurvam os auxiliadores soberbos.

14Quanto menos lhe responderia eu, ou escolheria diante dele as minhas palavras!

15Porque, ainda que eu fosse justo, não lhe responderia; antes ao meu Juiz pediria misericórdia.

16Ainda que chamasse, e ele me respondesse, nem por isso creria que desse ouvidos à minha voz.

17Porque me quebranta com uma tempestade, e multiplica as minhas chagas sem causa.

18Não me permite respirar, antes me farta de amarguras.

19Quanto às forças, eis que ele é o forte; e, quanto ao juízo, quem me citará com ele?

20Se eu me justificar, a minha boca me condenará; se for perfeito, então ela me declarará perverso.

21Se for perfeito, não estimo a minha alma; desprezo a minha vida.

22A coisa é esta; por isso eu digo que ele consome ao perfeito e ao ímpio.

23Quando o açoite mata de repente, então ele zomba da prova dos inocentes.

24A terra é entregue nas mãos do ímpio; ele cobre o rosto dos juízes; se não é ele, quem é, logo?

25E os meus dias são mais velozes do que um correio; fugiram, e não viram o bem.

26Passam como navios veleiros; como águia que se lança à comida.

27Se eu disser: Eu me esquecerei da minha queixa, e mudarei o meu aspecto e tomarei alento,

28Receio todas as minhas dores, porque bem sei que não me terás por inocente.

29E, sendo eu ímpio, por que trabalharei em vão?

30Ainda que me lave com água de neve, e purifique as minhas mãos com sabão,

31Ainda me submergirás no fosso, e as minhas próprias vestes me abominarão.

32Porque ele não é homem, como eu, a quem eu responda, vindo juntamente a juízo.

33Não há entre nós árbitro que ponha a mão sobre nós ambos.

34Tire ele a sua vara de cima de mim, e não me amedronte o seu terror.

35Então falarei, e não o temerei; porque não sou assim em mim mesmo.

Capítulo 10

1A MINHA alma tem tédio da minha vida; darei livre curso à minha queixa, falarei na amargura da minha alma.

2Direi a Deus: Não me condenes; faze-me saber por que contendes comigo.

3Parece-te bem que me oprimas, que rejeites o trabalho das tuas mãos e resplandeças sobre o conselho dos ímpios?

4Tens tu porventura olhos de carne? Vês tu como vê o homem?

5São os teus dias como os dias do homem? Ou são os teus anos como os anos de um homem,

6Para te informares da minha iniqüidade, e averiguares o meu pecado?

7Bem sabes tu que eu não sou iníquo; todavia ninguém há que me livre da tua mão.

8As tuas mãos me fizeram e me formaram completamente; contudo me consomes.

9Peço-te que te lembres de que como barro me formaste e me farás voltar ao pó.

10Porventura não me vazaste como leite, e como queijo não me coalhaste?

11De pele e carne me vestiste, e de ossos e nervos me teceste.

12Vida e misericórdia me concedeste; e o teu cuidado guardou o meu espírito.

13Porém estas coisas as ocultaste no teu coração; bem sei eu que isto esteve contigo.

14Se eu pecar, tu me observas; e da minha iniqüidade não me escusarás.

15Se for ímpio, ai de mim! E se for justo, não levantarei a minha cabeça; farto estou da minha ignomínia; e vê qual é a minha aflição,

16Porque se vai crescendo; tu me caças como a um leão feroz; tornas a fazer maravilhas para comigo.

17Tu renovas contra mim as tuas testemunhas, e multiplicas contra mim a tua ira; revezes e combate estão comigo.

18Por que, pois, me tiraste da madre? Ah! se então tivera expirado, e olho nenhum me visse!

19Então eu teria sido como se nunca fora; e desde o ventre seria levado à sepultura!

20Porventura não são poucos os meus dias? Cessa, pois, e deixa-me, para que por um pouco eu tome alento.

21Antes que eu vá para o lugar de que não voltarei, à terra da escuridão e da sombra da morte;

22Terra escuríssima, como a própria escuridão, terra da sombra da morte e sem ordem alguma, e onde a luz é como a escuridão.

Capítulo 11

1ENTÃO respondeu Zofar, o naamatita, e disse:

2Porventura não se dará resposta à multidão de palavras? E o homem falador será justificado?

3Às tuas mentiras se hão de calar os homens? E zombarás tu sem que ninguém te envergonhe?

4Pois dizes: A minha doutrina é pura, e limpo sou aos teus olhos.

5Mas na verdade, quem dera que Deus falasse e abrisse os seus lábios contra ti!

6E te fizesse saber os segredos da sabedoria, que é multíplice em eficácia; sabe, pois, que Deus exige de ti menos do que merece a tua iniqüidade.

7Porventura alcançarás os caminhos de Deus, ou chegarás à perfeição do Todo-Poderoso?

8Como as alturas dos céus é a sua sabedoria; que poderás tu fazer? É mais profunda do que o inferno, que poderás tu saber?

9Mais comprida é a sua medida do que a terra, e mais larga do que o mar.

10Se ele passar, aprisionar, ou chamar a juízo, quem o impedirá?

11Porque ele conhece aos homens vãos, e vê o vício; e não o terá em consideração?

12Mas o homem vão é falto de entendimento; sim, o homem nasce como a cria do jumento montês.

13Se tu preparares o teu coração, e estenderes as tuas mãos para ele;

14Se há iniqüidade na tua mão, lança-a para longe de ti e não deixes habitar a injustiça nas tuas tendas.

15Porque então o teu rosto levantarás sem mácula; e estarás firme, e não temerás.

16Porque te esquecerás do cansaço, e lembrar-te-ás dele como das águas que já passaram.

17E a tua vida mais clara se levantará do que o meio dia; ainda que haja trevas, será como a manhã.

18E terás confiança, porque haverá esperança; olharás em volta e repousarás seguro.

19E deitar-te-ás, e ninguém te espantará; muitos suplicarão o teu favor.

20Porém os olhos dos ímpios desfalecerão, e perecerá o seu refúgio; e a sua esperança será o expirar da alma.

Capítulo 12

1ENTÃO Jó respondeu, dizendo:

2Na verdade, vós sois o povo, e convosco morrerá a sabedoria.

3Também eu tenho entendimento como vós, e não vos sou inferior; e quem não sabe tais coisas como essas?

4Eu sou motivo de riso para os meus amigos; eu, que invoco a Deus, e ele me responde; o justo e perfeito serve de zombaria.

5Tocha desprezível é, na opinião do que está descansado, aquele que está pronto a vacilar com os pés.

6As tendas dos assoladores têm descanso, e os que provocam a Deus estão seguros; nas suas mãos Deus lhes põe tudo.

7Mas, pergunta agora às alimárias, e cada uma delas te ensinará; e às aves dos céus, e elas te farão saber;

8Ou fala com a terra, e ela te ensinará; até os peixes do mar te contarão.

9Quem não entende, por todas estas coisas, que a mão do SENHOR fez isto?

10Na sua mão está a alma de tudo quanto vive, e o espírito de toda a carne humana.

11Porventura o ouvido não provará as palavras, como o paladar prova as comidas?

12Com os idosos está a sabedoria, e na longevidade o entendimento.

13Com ele está a sabedoria e a força; conselho e entendimento tem.

14Eis que ele derruba, e ninguém há que edifique; prende um homem, e ninguém há que o solte.

15Eis que ele retém as águas, e elas secam; e solta-as, e elas transtornam a terra.

16Com ele está a força e a sabedoria; seu é o que erra e o que o faz errar.

17Aos conselheiros leva despojados, e aos juízes faz desvairar.

18Solta a autoridade dos reis, e ata o cinto aos seus lombos.

19Aos sacerdotes leva despojados, aos poderosos transtorna.

20Aos acreditados tira a fala, e tira o entendimento aos anciãos.

21Derrama desprezo sobre os príncipes, e afrouxa o cinto dos fortes.

22Das trevas descobre coisas profundas, e traz à luz a sombra da morte.

23Multiplica as nações e as faz perecer; dispersa as nações, e de novo as reconduz.

24Tira o entendimento aos chefes dos povos da terra, e os faz vaguear pelos desertos, sem caminho.

25Nas trevas andam às apalpadelas, sem terem luz, e os faz desatinar como ébrios.

Capítulo 13

1EIS que tudo isto viram os meus olhos, e os meus ouvidos o ouviram e entenderam.

2Como vós o sabeis, também eu o sei; não vos sou inferior.

3Mas eu falarei ao Todo-Poderoso, e quero defender-me perante Deus.

4Vós, porém, sois inventores de mentiras, e vós todos médicos que não valem nada.

5Quem dera que vos calásseis de todo, pois isso seria a vossa sabedoria.

6Ouvi agora a minha defesa, e escutai os argumentos dos meus lábios.

7Porventura por Deus falareis perversidade e por ele falareis mentiras?

8Fareis acepção da sua pessoa? Contendereis por Deus?

9Ser-vos-ia bom, se ele vos esquadrinhasse? Ou zombareis dele, como se zomba de algum homem?

10Certamente vos repreenderá, se em oculto fizerdes acepção de pessoas.

11Porventura não vos espantará a sua alteza, e não cairá sobre vós o seu terror?

12As vossas memórias são como provérbios de cinza; as vossas defesas como defesas de lodo.

13Calai-vos perante mim, e falarei eu, e venha sobre mim o que vier.

14Por que razão tomarei eu a minha carne com os meus dentes, e porei a minha vida na minha mão?

15Ainda que ele me mate, nele esperarei; contudo os meus caminhos defenderei diante dele.

16Também ele será a minha salvação; porém o hipócrita não virá perante ele.

17Ouvi com atenção as minhas palavras, e com os vossos ouvidos a minha declaração.

18Eis que já tenho ordenado a minha causa, e sei que serei achado justo.

19Quem é o que contenderá comigo? Se eu agora me calasse, renderia o espírito.

20Duas coisas somente não faças para comigo; então não me esconderei do teu rosto:

21Desvia a tua mão para longe, de mim, e não me espante o teu terror.

22Chama, pois, e eu responderei; ou eu falarei, e tu me responderás.

23Quantas culpas e pecados tenho eu? Notifica-me a minha transgressão e o meu pecado.

24Por que escondes o teu rosto, e me tens por teu inimigo?

25Porventura acossarás uma folha arrebatada pelo vento? E perseguirás o restolho seco?

26Por que escreves contra mim coisas amargas e me fazes herdar as culpas da minha mocidade?

27Também pões os meus pés no tronco, e observas todos os meus caminhos, e marcas os sinais dos meus pés.

28E ele me consome como a podridão, e como a roupa, à qual rói a traça.

Capítulo 14

1O HOMEM, nascido da mulher, é de poucos dias e farto de inquietação.

2Sai como a flor, e murcha; foge também como a sombra, e não permanece.

3E sobre este tal abres os teus olhos, e a mim me fazes entrar no juízo contigo.

4Quem do imundo tirará o puro? Ninguém.

5Visto que os seus dias estão determinados, contigo está o número dos seus meses; e tu lhe puseste limites, e não passará além deles.

6Desvia-te dele, para que tenha repouso, até que, como o jornaleiro, tenha contentamento no seu dia.

7Porque há esperança para a árvore que, se for cortada, ainda se renovará, e não cessarão os seus renovos.

8Se envelhecer na terra a sua raiz, e o seu tronco morrer no pó,

9Ao cheiro das águas brotará, e dará ramos como uma planta.

10Porém, morto o homem, é consumido; sim, rendendo o homem o espírito, então onde está ele?

11Como as águas se retiram do mar, e o rio se esgota, e fica seco,

12Assim o homem se deita, e não se levanta; até que não haja mais céus, não acordará nem despertará de seu sono.

13Quem dera que me escondesses na sepultura, e me ocultasses até que a tua ira se fosse; e me pusesses um limite, e te lembrasses de mim!

14Morrendo o homem, porventura tornará a viver? Todos os dias de meu combate esperaria, até que viesse a minha mudança.

15Chamar-me-ias, e eu te responderia, e terias afeto à obra de tuas mãos.

16Mas agora contas os meus passos; porventura não vigias sobre o meu pecado?

17A minha transgressão está selada num saco, e amontoas as minhas iniqüidades.

18E, na verdade, caindo a montanha, desfaz-se; e a rocha se remove do seu lugar.

19As águas gastam as pedras, as cheias afogam o pó da terra; e tu fazes perecer a esperança do homem;

20Tu para sempre prevaleces contra ele, e ele passa; mudas o seu rosto, e o despedes.

21Os seus filhos recebem honra, sem que ele o saiba; são humilhados; sem que ele o perceba;

22Mas a sua carne nele tem dores; e a sua alma nele lamenta.

Capítulo 15

1ENTÃO respondeu Elifaz o temanita, e disse:

2Porventura proferirá o sábio vã sabedoria? E encherá do vento oriental o seu ventre,

3Argüindo com palavras que de nada servem, e com razões, de que nada aproveita?

4E tu tens feito vão o temor, e diminuis os rogos diante de Deus.

5Porque a tua boca declara a tua iniqüidade; e tu escolhes a língua dos astutos.

6A tua boca te condena, e não eu, e os teus lábios testificam contra ti.

7És tu porventura o primeiro homem que nasceu? Ou foste formado antes dos outeiros?

8Ou ouviste o secreto conselho de Deus e a ti só limitaste a sabedoria?

9Que sabes tu, que nós não saibamos? Que entendes, que não haja em nós?

10Também há entre nós encanecidos e idosos, muito mais idosos do que teu pai.

11Porventura fazes pouco caso das consolações de Deus, e da suave palavra que te dirigimos?

12Por que te arrebata o teu coração, e por que piscam os teus olhos?

13Para virares contra Deus o teu espírito, e deixares sair tais palavras da tua boca?

14Que é o homem, para que seja puro? E o que nasce da mulher, para ser justo?

15Eis que ele não confia nos seus santos, e nem os céus são puros aos seus olhos.

16Quanto mais abominável e corrupto é o homem que bebe a iniqüidade como a água?

17Escuta-me, mostrar-te-ei; e o que tenho visto te contarei

18(O que os sábios anunciaram, ouvindo-o de seus pais, e o não ocultaram;

19Aos quais somente se dera a terra, e nenhum estranho passou por entre eles):

20Todos os dias o ímpio é atormentado, e se reserva, para o tirano, um certo número de anos.

21O sonido dos horrores está nos seus ouvidos; até na paz lhe sobrevém o assolador.

22Não crê que tornará das trevas, mas que o espera a espada.

23Anda vagueando por pão, dizendo: Onde está? Bem sabe que já o dia das trevas lhe está preparado, à mão.

24Assombram-no a angústia e a tribulação; prevalecem contra ele, como o rei preparado para a peleja;

25Porque estendeu a sua mão contra Deus, e contra o Todo-Poderoso se embraveceu.

26Arremete contra ele com a dura cerviz, e contra os pontos grossos dos seus escudos.

27Porquanto cobriu o seu rosto com a sua gordura, e criou gordura nas ilhargas.

28E habitou em cidades assoladas, em casas em que ninguém morava, que estavam a ponto de fazer-se montões de ruínas.

29Não se enriquecerá, nem subsistirá a sua fazenda, nem se estenderão pela terra as suas possessões.

30Não escapará das trevas; a chama do fogo secará os seus renovos, e ao sopro da sua boca desaparecerá.

31Não confie, pois, na vaidade, enganando-se a si mesmo, porque a vaidade será a sua recompensa.

32Antes do seu dia ela se consumará; e o seu ramo não reverdecerá.

33Sacudirá as suas uvas verdes, como as da vide, e deixará cair a sua flor como a oliveira,

34Porque a congregação dos hipócritas se fará estéril, e o fogo consumirá as tendas do suborno.

35Concebem a malícia, e dão à luz a iniqüidade, e o seu ventre prepara enganos.

Capítulo 16

1ENTÃO respondeu Jó, dizendo:

2Tenho ouvido muitas coisas como estas; todos vós sois consoladores molestos.

3Porventura não terão fim essas palavras de vento? Ou o que te irrita, para assim responderes?

4Falaria eu também como vós falais, se a vossa alma estivesse em lugar da minha alma, ou amontoaria palavras contra vós, e menearia contra vós a minha cabeça?

5Antes vos fortaleceria com a minha boca, e a consolação dos meus lábios abrandaria a vossa dor.

6Se eu falar, a minha dor não cessa, e, calando-me eu, qual é o meu alívio?

7Na verdade, agora tu me tens fatigado; tu assolaste toda a minha companhia,

8Testemunha disto é que já me fizeste enrugado, e a minha magreza já se levanta contra mim, e no meu rosto testifica contra mim.

9Na sua ira me despedaçou, e ele me perseguiu; rangeu os seus dentes contra mim; aguça o meu adversário os seus olhos contra mim.

10Abrem a sua boca contra mim; com desprezo me feriram nos queixos, e contra mim se ajuntam todos.

11Entrega-me Deus ao perverso, e nas mãos dos ímpios me faz cair.

12Descansado estava eu, porém ele me quebrantou; e pegou-me pela cerviz, e me despedaçou; também me pôs por seu alvo.

13Cercam-me os seus flecheiros; atravessa-me os rins, e não me poupa, e o meu fel derrama sobre a terra,

14Fere-me com ferimento sobre ferimento; arremete contra mim como um valente.

15Cosi sobre a minha pele o cilício, e revolvi a minha cabeça no pó.

16O meu rosto está todo avermelhado de chorar, e sobre as minhas pálpebras está a sombra da morte:

17Apesar de não haver violência nas minhas mãos, e de ser pura a minha oração.

18Ah! terra, não cubras o meu sangue e não haja lugar para ocultar o meu clamor!

19Eis que também agora a minha testemunha está no céu, e nas alturas o meu testemunho está.

20Os meus amigos são os que zombam de mim; os meus olhos se desfazem em lágrimas diante de Deus.

21Ah! se alguém pudesse contender com Deus pelo homem, como o homem pelo seu próximo!

22Porque decorridos poucos anos, eu seguirei o caminho por onde não tornarei.

 

Capítulo 17

1O MEU espírito se vai consumindo, os meus dias se vão apagando, e só tenho perante mim a sepultura.

2Deveras estou cercado de zombadores, e os meus olhos contemplam as suas provocações.

3Promete agora, e dá-me um fiador para contigo; quem há que me dê a mão?

4Porque aos seus corações encobriste o entendimento, por isso não os exaltarás.

5O que denuncia os seus amigos, a fim de serem despojados, também os olhos de seus filhos desfalecerão.

6Porém a mim me pôs por um provérbio dos povos, de modo que me tornei uma abominação para eles.

7Pelo que já se escureceram de mágoa os meus olhos, e já todos os meus membros são como a sombra.

8Os retos pasmarão disto, e o inocente se levantará contra o hipócrita.

9E o justo seguirá o seu caminho firmemente, e o puro de mãos irá crescendo em força.

10Mas, na verdade, tornai todos vós e vinde; porque sábio nenhum acharei entre vós.

11Os meus dias passaram, e malograram os meus propósitos, as aspirações do meu coração.

12Trocaram a noite em dia; a luz está perto do fim, por causa das trevas.

13Se eu esperar, a sepultura será a minha casa; nas trevas estenderei a minha cama.

14À corrupção clamo: Tu és meu pai; e aos vermes: Vós sois minha mãe e minha irmã.

15Onde, pois, estaria agora a minha esperança? Sim, a minha esperança, quem a poderá ver?

16As barras da sepultura descerão quando juntamente no pó teremos descanso.

Capítulo 18

1ENTÃO respondeu Bildade, o suíta, e disse:

2Até quando poreis fim às palavras? Considerai bem, e então falaremos.

3Por que somos tratados como animais, e como imundos aos vossos olhos?

4Oh tu, que despedaças a tua alma na tua ira, será a terra deixada por tua causa? Remover-se-ão as rochas do seu lugar?

5Na verdade, a luz dos ímpios se apagará, e a chama do seu fogo não resplandecerá.

6A luz se escurecerá nas suas tendas, e a sua lâmpada sobre ele se apagará.

7Os seus passos firmes se estreitarão, e o seu próprio conselho o derrubará.

8Porque por seus próprios pés é lançado na rede, e andará nos fios enredados.

9O laço o apanhará pelo calcanhar, e a armadilha o prenderá.

10Está escondida debaixo da terra uma corda, e uma armadilha na vereda.

11Os assombros o espantarão de todos os lados, e o perseguirão a cada passo.

12Será faminto o seu vigor, e a destruição está pronta ao seu lado.

13Serão devorados os membros do seu corpo; sim, o primogênito da morte devorará os seus membros.

14A sua confiança será arrancada da sua tenda, onde está confiado, e isto o fará caminhar para o rei dos terrores.

15Morará na sua mesma tenda, o que não lhe pertence; espalhar-se-á enxofre sobre a sua habitação.

16Por baixo se secarão as suas raízes e por cima serão cortados os seus ramos.

17A sua memória perecerá da terra, e pelas praças não terá nome.

18Da luz o lançarão nas trevas, e afugentá-lo-ão do mundo.

19Não terá filho nem neto entre o seu povo, e nem quem lhe suceda nas suas moradas.

20Do seu dia se espantarão os do ocidente, assim como se espantam os do oriente.

21Tais são, na verdade, as moradas do perverso, e este é o lugar do que não conhece a Deus.

Capítulo 19

1RESPONDEU, porém, Jó, dizendo:

2Até quando afligireis a minha alma, e me quebrantareis com palavras?

3Já dez vezes me vituperastes; não tendes vergonha de injuriar-me.

4Embora haja eu, na verdade, errado, comigo ficará o meu erro.

5Se deveras vos quereis engrandecer contra mim, e argüir-me pelo meu opróbrio,

6Sabei agora que Deus é o que me transtornou, e com a sua rede me cercou.

7Eis que clamo: Violência! Porém não sou ouvido. Grito: Socorro! Porém não há justiça.

😯 meu caminho ele entrincheirou, e já não posso passar, e nas minhas veredas pôs trevas.

9Da minha honra me despojou; e tirou-me a coroa da minha cabeça.

10Quebrou-me de todos os lados, e eu me vou; e arrancou a minha esperança, como a uma árvore.

11E fez inflamar contra mim a sua ira, e me reputou para consigo, como a seus inimigos.

12Juntas vieram as suas tropas, e prepararam contra mim o seu caminho, e se acamparam ao redor da minha tenda.

13Pôs longe de mim a meus irmãos, e os que me conhecem, como estranhos se apartaram de mim.

14Os meus parentes me deixaram, e os meus conhecidos se esqueceram de mim.

15Os meus domésticos e as minhas servas me reputaram como um estranho, e vim a ser um estrangeiro aos seus olhos.

16Chamei a meu criado, e ele não me respondeu; cheguei a suplicar-lhe com a minha própria boca.

17O meu hálito se fez estranho à minha mulher; tanto que supliquei o interesse dos filhos do meu corpo.

18Até os pequeninos me desprezam, e, levantando-me eu, falam contra mim.

19Todos os homens da minha confidência me abominam, e até os que eu amava se tornaram contra mim.

20Os meus ossos se apegaram à minha pele e à minha carne, e escapei só com a pele dos meus dentes.

21Compadecei-vos de mim, amigos meus, compadecei-vos de mim, porque a mão de Deus me tocou.

22Por que me perseguis assim como Deus, e da minha carne não vos fartais?

23Quem me dera agora, que as minhas palavras fossem escritas! Quem me dera, fossem gravadas num livro!

24E que, com pena de ferro, e com chumbo, para sempre fossem esculpidas na rocha.

25Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra.

26E depois de consumida a minha pele, contudo ainda em minha carne verei a Deus,

27Vê-lo-ei, por mim mesmo, e os meus olhos, e não outros o contemplarão; e por isso os meus rins se consomem no meu interior.

28Na verdade, que devíeis dizer: Por que o perseguimos? Pois a raiz da acusação se acha em mim.

29Temei vós mesmos a espada; porque o furor traz os castigos da espada, para saberdes que há um juízo.

Capítulo 20

1ENTÃO respondeu Zofar, o naamatita, e disse:

2Visto que os meus pensamentos me fazem responder, eu me apresso.

3Eu ouvi a repreensão, que me envergonha, mas o espírito do meu entendimento responderá por mim.

4Porventura não sabes tu que desde a antiguidade, desde que o homem foi posto sobre a terra,

5O júbilo dos ímpios é breve, e a alegria dos hipócritas momentânea?

6Ainda que a sua altivez suba até ao céu, e a sua cabeça chegue até às nuvens.

7Contudo, como o seu próprio esterco, perecerá para sempre; e os que o viam dirão: Onde está?

8Como um sonho voará, e não será achado, e será afugentado como uma visão da noite.

9O olho, que já o viu, jamais o verá, nem o seu lugar o verá mais.

10Os seus filhos procurarão agradar aos pobres, e as suas mãos restituirão os seus bens.

11Os seus ossos estão cheios do vigor da sua mocidade, mas este se deitará com ele no pó.

12Ainda que o mal lhe seja doce na boca, e ele o esconda debaixo da sua língua,

13E o guarde, e não o deixe, antes o retenha no seu paladar,

14Contudo a sua comida se mudará nas suas entranhas; fel de áspides será interiormente.

15Engoliu riquezas, porém vomitá-las-á; do seu ventre Deus as lançará.

16Veneno de áspides sorverá; língua de víbora o matará.

17Não verá as correntes, os rios e os ribeiros de mel e manteiga.

18Restituirá o seu trabalho, e não o engolirá; conforme ao poder de sua mudança, e não saltará de gozo.

19Porquanto oprimiu e desamparou os pobres, e roubou a casa que não edificou.

20Porquanto não sentiu sossego no seu ventre; nada salvará das coisas por ele desejadas.

21Nada lhe sobejará do que coma; por isso as suas riquezas não durarão.

22Sendo plena a sua abastança, estará angustiado; toda a força da miséria virá sobre ele.

23Mesmo estando ele a encher a sua barriga, Deus mandará sobre ele o ardor da sua ira, e a fará chover sobre ele quando for comer.

24Ainda que fuja das armas de ferro, o arco de bronze o atravessará.

25Desembainhará a espada que sairá do seu corpo, e resplandecendo virá do seu fel; e haverá sobre ele assombros.

26Toda a escuridão se ocultará nos seus esconderijos; um fogo não assoprado o consumirá, irá mal com o que ficar na sua tenda.

27Os céus manifestarão a sua iniqüidade; e a terra se levantará contra ele.

28As riquezas de sua casa serão transportadas; no dia da sua ira todas se derramarão.

29Esta, da parte de Deus, é a porção do homem ímpio; esta é a herança que Deus lhe decretou.

Capítulo 21

1RESPONDEU, porém, Jó, dizendo:

2Ouvi atentamente as minhas razões; e isto vos sirva de consolação.

3Sofrei-me, e eu falarei; e havendo eu falado, zombai.

4Porventura eu me queixo de algum homem? Porém, ainda que assim fosse, por que não se angustiaria o meu espírito?

5Olhai para mim, e pasmai; e ponde a mão sobre a boca.

6Porque, quando me lembro disto me perturbo, e a minha carne é sobressaltada de horror.

7Por que razão vivem os ímpios, envelhecem, e ainda se robustecem em poder?

8A sua descendência se estabelece com eles perante a sua face; e os seus renovos perante os seus olhos.

9As suas casas têm paz, sem temor; e a vara de Deus não está sobre eles.

10O seu touro gera, e não falha; pare a sua vaca, e não aborta.

11Fazem sair as suas crianças, como a um rebanho, e seus filhos andam saltando.

12Levantam a voz, ao som do tamboril e da harpa, e alegram-se ao som do órgão.

13Na prosperidade gastam os seus dias, e num momento descem à sepultura.

14E, todavia, dizem a Deus: Retira-te de nós; porque não desejamos ter conhecimento dos teus caminhos.

15Quem é o Todo-Poderoso, para que nós o sirvamos? E que nos aproveitará que lhe façamos orações?

16Vede, porém, que a prosperidade não está nas mãos deles; esteja longe de mim o conselho dos ímpios!

17Quantas vezes sucede que se apaga a lâmpada dos ímpios, e lhes sobrevém a sua destruição? E Deus na sua ira lhes reparte dores!

18Porque são como a palha diante do vento, e como a pragana, que arrebata o redemoinho.

19Deus guarda a sua violência para seus filhos, e dá-lhe o pago, para que o conheça.

20Seus olhos verão a sua ruína, e ele beberá do furor do Todo-Poderoso.

21Por que, que prazer teria na sua casa, depois de morto, cortando-se-lhe o número dos seus meses?

22Porventura a Deus se ensinaria ciência, a ele que julga os excelsos?

23Um morre na força da sua plenitude, estando inteiramente sossegado e tranqüilo.

24Com seus baldes cheios de leite, e a medula dos seus ossos umedecida.

25E outro, ao contrário, morre na amargura do seu coração, não havendo provado do bem.

26Juntamente jazem no pó, e os vermes os cobrem.

27Eis que conheço bem os vossos pensamentos; e os maus intentos com que injustamente me fazeis violência.

28Porque direis: Onde está a casa do príncipe, e onde a tenda em que moravam os ímpios?

29Porventura não perguntastes aos que passam pelo caminho, e não conheceis os seus sinais,

30Que o mau é preservado para o dia da destruição; e arrebatado no dia do furor?

31Quem acusará diante dele o seu caminho, e quem lhe dará o pago do que faz?

32Finalmente é levado à sepultura, e vigiam-lhe o túmulo.

33Os torrões do vale lhe são doces, e o seguirão todos os homens; e adiante dele foram inumeráveis.

34Como, pois, me consolais com vaidade? Pois nas vossas respostas ainda resta a transgressão.

Capítulo 22

1ENTÃO respondeu Elifaz, o temanita, dizendo:

2Porventura será o homem de algum proveito a Deus? Antes a si mesmo o prudente será proveitoso.

3Ou tem o Todo-Poderoso prazer em que tu sejas justo, ou algum lucro em que tu faças perfeitos os teus caminhos?

4Ou te repreende, pelo temor que tem de ti, ou entra contigo em juízo?

5Porventura não é grande a tua malícia, e sem termo as tuas iniqüidades?

6Porque sem causa penhoraste a teus irmãos, e aos nus despojaste as vestes.

7Não deste ao cansado água a beber, e ao faminto retiveste o pão.

8Mas para o poderoso era a terra, e o homem tido em respeito habitava nela.

9As viúvas despediste vazias, e os braços dos órfãos foram quebrados.

10Por isso é que estás cercado de laços, e te perturba um pavor repentino,

11Ou trevas em que nada vês, e a abundância de águas que te cobre.

12Porventura Deus não está na altura dos céus? Olha para a altura das estrelas; quão elevadas estão.

13E dizes: que sabe Deus? Porventura julgará ele através da escuridão?

14As nuvens são esconderijo para ele, para que não veja; e passeia pelo circuito dos céus.

15Porventura queres guardar a vereda antiga, que pisaram os homens iníquos?

16Eles foram arrebatados antes do seu tempo; sobre o seu fundamento um dilúvio se derramou.

17Diziam a Deus: Retira-te de nós. E: Que foi que o Todo-Poderoso nos fez?

18Contudo ele encheu de bens as suas casas; mas o conselho dos ímpios esteja longe de mim.

19Os justos o vêem, e se alegram, e o inocente escarnece deles.

20Porquanto o nosso adversário não foi destruído, mas o fogo consumiu o que restou deles.

21Apega-te, pois, a ele, e tem paz, e assim te sobrevirá o bem.

22Aceita, peço-te, a lei da sua boca, e põe as suas palavras no teu coração.

23Se te voltares ao Todo-Poderoso, serás edificado; se afastares a iniqüidade da tua tenda,

24E deitares o teu tesouro no pó, e o ouro de Ofir nas pedras dos ribeiros,

25Então o Todo-Poderoso será o teu tesouro, e a tua prata acumulada.

26Porque então te deleitarás no Todo-Poderoso, e levantarás o teu rosto para Deus.

27Orarás a ele, e ele te ouvirá, e pagarás os teus votos.

28Determinarás tu algum negócio, e ser-te-á firme, e a luz brilhará em teus caminhos.

29Quando te abaterem, então tu dirás: Haja exaltação! E Deus salvará ao humilde.

30E livrará até ao que não é inocente; porque será libertado pela pureza de tuas mãos.

Capítulo 23

1RESPONDEU, porém, Jó, dizendo:

2Ainda hoje a minha queixa está em amargura; a minha mão pesa sobre meu gemido.

3Ah, se eu soubesse onde o poderia achar! Então me chegaria ao seu tribunal.

4Exporia ante ele a minha causa, e a minha boca encheria de argumentos.

5Saberia as palavras com que ele me responderia, e entenderia o que me dissesse.

6Porventura segundo a grandeza de seu poder contenderia comigo? Não: ele antes me atenderia.

7Ali o reto pleitearia com ele, e eu me livraria para sempre do meu Juiz.

8Eis que se me adianto, ali não está; se torno para trás, não o percebo.

9Se opera à esquerda, não o vejo; se se encobre à direita, não o diviso.

10Porém ele sabe o meu caminho; provando-me ele, sairei como o ouro.

11Nas suas pisadas os meus pés se afirmaram; guardei o seu caminho, e não me desviei dele.

12Do preceito de seus lábios nunca me apartei, e as palavras da sua boca guardei mais do que a minha porção.

13Mas, se ele resolveu alguma coisa, quem então o desviará? O que a sua alma quiser, isso fará.

14Porque cumprirá o que está ordenado a meu respeito, e muitas coisas como estas ainda tem consigo.

15Por isso me perturbo perante ele, e quando isto considero, temo-me dele.

16Porque Deus macerou o meu coração, e o Todo-Poderoso me perturbou.

17Porquanto não fui desarraigado por causa das trevas, e nem encobriu o meu rosto com a escuridão.

Capítulo 24

1VISTO que do Todo-Poderoso não se encobriram os tempos, por que, os que o conhecem, não vêem os seus dias?

2Até os limites removem; roubam os rebanhos, e os apascentam.

3Do órfão levam o jumento; tomam em penhor o boi da viúva.

4Desviam do caminho os necessitados; e os pobres da terra juntos se escondem.

5Eis que, como jumentos monteses no deserto, saem à sua obra, madrugando para a presa; a campina dá mantimento a eles e aos seus filhos.

6No campo segam o seu pasto, e vindimam a vinha do ímpio.

7Ao nu fazem passar a noite sem roupa, não tendo ele coberta contra o frio.

8Pelas chuvas das montanhas são molhados e, não tendo refúgio, abraçam-se com as rochas.

9Ao orfãozinho arrancam dos peitos, e tomam o penhor do pobre.

10Fazem com que os nus vão sem roupa e aos famintos tiram as espigas.

11Dentro das suas paredes espremem o azeite; pisam os lagares, e ainda têm sede.

12Desde as cidades gemem os homens, e a alma dos feridos exclama, e contudo Deus lho não imputa como loucura.

13Eles estão entre os que se opõem à luz; não conhecem os seus caminhos, e não permanecem nas suas veredas.

14De madrugada se levanta o homicida, mata o pobre e necessitado, e de noite é como o ladrão.

15Assim como o olho do adúltero aguarda o crepúsculo, dizendo: Não me verá olho nenhum; e oculta o rosto,

16Nas trevas minam as casas, que de dia se marcaram; não conhecem a luz.

17Porque a manhã para todos eles é como sombra de morte; pois, sendo conhecidos, sentem os pavores da sombra da morte.

18É ligeiro sobre a superfície das águas; maldita é a sua parte sobre a terra; não volta pelo caminho das vinhas.

19A secura e o calor desfazem as águas da neve; assim desfará a sepultura aos que pecaram.

20A madre se esquecerá dele, os vermes o comerão gostosamente; nunca mais haverá lembrança dele; e a iniqüidade se quebrará como uma árvore.

21Aflige à estéril que não dá à luz, e à viúva não faz bem.

22Até aos poderosos arrasta com a sua força; se ele se levanta, não há vida segura.

23Se Deus lhes dá descanso, estribam-se nisso; seus olhos porém estão nos caminhos deles.

24Por um pouco se exaltam, e logo desaparecem; são abatidos, encerrados como todos os demais; e cortados como as cabeças das espigas.

25Se agora não é assim, quem me desmentirá e desfará as minhas razões?

Capítulo 25

1ENTÃO respondeu Bildade, o suíta, e disse:

2Com ele estão domínio e temor; ele faz paz nas suas alturas.

3Porventura têm número as suas tropas? E sobre quem não se levanta a sua luz?

4Como, pois, seria justo o homem para com Deus, e como seria puro aquele que nasce de mulher?

5Eis que até a lua não resplandece, e as estrelas não são puras aos seus olhos.

6E quanto menos o homem, que é um verme, e o filho do homem, que é um vermezinho!

 

Capítulo 26

1JÓ, porém, respondeu, dizendo:

2Como ajudaste aquele que não tinha força, e sustentaste o braço que não tinha vigor?

3Como aconselhaste aquele que não tinha sabedoria, e plenamente fizeste saber a causa, assim como era?

4A quem proferiste palavras, e de quem é o espírito que saiu de ti?

5Os mortos tremem debaixo das águas, com os seus moradores.

6O inferno está nu perante ele, e não há coberta para a perdição.

7O norte estende sobre o vazio; e suspende a terra sobre o nada.

8Prende as águas nas suas nuvens, todavia a nuvem não se rasga debaixo delas.

9Encobre a face do seu trono, e sobre ele estende a sua nuvem.

10Marcou um limite sobre a superfície das águas em redor, até aos confins da luz e das trevas.

11As colunas do céu tremem, e se espantam da sua ameaça.

12Com a sua força fende o mar, e com o seu entendimento abate a soberba.

13Pelo seu Espírito ornou os céus; a sua mão formou a serpente enroscadiça.

14Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos; e quão pouco é o que temos ouvido dele! Quem, pois, entenderia o trovão do seu poder?

 

Capítulo 27

1E PROSSEGUINDO Jó em seu discurso, disse:

2Vive Deus, que desviou a minha causa, e o Todo-Poderoso, que amargurou a minha alma.

3Que, enquanto em mim houver alento, e o sopro de Deus nas minhas narinas,

4Não falarão os meus lábios iniqüidade, nem a minha língua pronunciará engano.

5Longe de mim que eu vos justifique; até que eu expire, nunca apartarei de mim a minha integridade.

6À minha justiça me apegarei e não a largarei; não me reprovará o meu coração em toda a minha vida.

7Seja como o ímpio o meu inimigo, e como o perverso o que se levantar contra mim.

8Porque qual será a esperança do hipócrita, havendo sido avaro, quando Deus lhe arrancar a sua alma?

9Porventura Deus ouvirá o seu clamor, sobrevindo-lhe a tribulação?

10Deleitar-se-á no Todo-Poderoso, ou invocará a Deus em todo o tempo?

11Ensinar-vos-ei acerca da mão de Deus, e não vos encobrirei o que está com o Todo-Poderoso.

12Eis que todos vós já o vistes; por que, pois, vos desvaneceis na vossa vaidade?

13Esta, pois, é a porção do homem ímpio da parte de Deus, e a herança, que os tiranos receberão do Todo-Poderoso.

14Se os seus filhos se multiplicarem, será para a espada, e a sua prole não se fartará de pão.

15Os que ficarem dele na morte serão enterrados, e as suas viúvas não chorarão.

16Se amontoar prata como pó, e aparelhar roupas como lodo,

17Ele as aparelhará, porém o justo as vestirá, e o inocente repartirá a prata.

18E edificará a sua casa como a traça, e como o guarda que faz a cabana.

19Rico se deita, e não será recolhido; abre os seus olhos, e nada terá.

20Pavores se apoderam dele como águas; de noite o arrebata a tempestade.

21O vento oriental leva-o, e ele se vai, e varre-o com ímpeto do seu lugar.

22E Deus lançará isto sobre ele, e não lhe poupará; irá fugindo da sua mão.

23Cada um baterá palmas contra ele e assobiará tirando-o do seu lugar.

Capítulo 28

1NA verdade, há veios de onde se extrai a prata, e lugar onde se refina o ouro.

2O ferro tira-se da terra, e da pedra se funde o cobre.

3Ele põe fim às trevas, e toda a extremidade ele esquadrinha, a pedra da escuridão e a da sombra da morte.

4Abre um poço de mina longe dos homens, em lugares esquecidos do pé; ficando pendentes longe dos homens, oscilam de um lado para outro.

5Da terra procede o pão, mas por baixo é revolvida como por fogo.

6As suas pedras são o lugar da safira, e tem pó de ouro.

7Essa vereda a ave de rapina a ignora, e não a viram os olhos da gralha.

8Nunca a pisaram filhos de animais altivos, nem o feroz leão passou por ela.

9Ele estende a sua mão contra o rochedo, e revolve os montes desde as suas raízes.

10Dos rochedos faz sair rios, e o seu olho vê tudo o que há de precioso.

11Os rios tapa, e nem uma gota sai deles, e tira à luz o que estava escondido.

12Porém onde se achará a sabedoria, e onde está o lugar da inteligência?

13O homem não conhece o seu valor, e nem ela se acha na terra dos viventes.

14O abismo diz: Não está em mim; e o mar diz: Ela não está comigo.

15Não se dará por ela ouro fino, nem se pesará prata em troca dela.

16Nem se pode comprar por ouro fino de Ofir, nem pelo precioso ônix, nem pela safira.

17Com ela não se pode comparar o ouro nem o cristal; nem se trocará por jóia de ouro fino.

18Não se fará menção de coral nem de pérolas; porque o valor da sabedoria é melhor que o dos rubis.

19Não se lhe igualará o topázio da Etiópia, nem se pode avaliar por ouro puro.

20Donde, pois, vem a sabedoria, e onde está o lugar da inteligência?

21Pois está encoberta aos olhos de todo o vivente, e oculta às aves do céu.

22A perdição e a morte dizem: Ouvimos com os nossos ouvidos a sua fama.

23Deus entende o seu caminho, e ele sabe o seu lugar.

24Porque ele vê as extremidades da terra; e vê tudo o que há debaixo dos céus.

25Quando deu peso ao vento, e tomou a medida das águas;

26Quando prescreveu leis para a chuva e caminho para o relâmpago dos trovões;

27Então a viu e relatou; estabeleceu-a, e também a esquadrinhou.

28E disse ao homem: Eis que o temor do Senhor é a sabedoria, e apartar-se do mal é a inteligência.

Capítulo 29

1E PROSSEGUIU Jó no seu discurso, dizendo:

2Ah! quem me dera ser como eu fui nos meses passados, como nos dias em que Deus me guardava!

3Quando fazia resplandecer a sua lâmpada sobre a minha cabeça e quando eu pela sua luz caminhava pelas trevas.

4Como fui nos dias da minha mocidade, quando o segredo de Deus estava sobre a minha tenda;

5Quando o Todo-Poderoso ainda estava comigo, e os meus filhos em redor de mim.

6Quando lavava os meus passos na manteiga, e da rocha me corriam ribeiros de azeite;

7Quando eu saía para a porta da cidade, e na rua fazia preparar a minha cadeira,

8Os moços me viam, e se escondiam, e até os idosos se levantavam e se punham em pé;

9Os príncipes continham as suas palavras, e punham a mão sobre a sua boca;

10A voz dos nobres se calava, e a sua língua apegava-se ao seu paladar.

11Ouvindo-me algum ouvido, me tinha por bem-aventurado; vendo-me algum olho, dava testemunho de mim;

12Porque eu livrava o miserável, que clamava, como também o órfão que não tinha quem o socorresse.

13A bênção do que ia perecendo vinha sobre mim, e eu fazia que rejubilasse o coração da viúva.

14Vestia-me da justiça, e ela me servia de vestimenta; como manto e diadema era a minha justiça.

15Eu me fazia de olhos para o cego, e de pés para o coxo.

16Dos necessitados era pai, e as causas de que eu não tinha conhecimento inquiria com diligência.

17E quebrava os queixos do perverso, e dos seus dentes tirava a presa.

18E dizia: No meu ninho expirarei, e multiplicarei os meus dias como a areia.

19A minha raiz se estendia junto às águas, e o orvalho permanecia sobre os meus ramos;

20A minha honra se renovava em mim, e o meu arco se reforçava na minha mão.

21Ouviam-me e esperavam, e em silêncio atendiam ao meu conselho.

22Havendo eu falado, não replicavam, e minhas razões destilavam sobre eles;

23Porque me esperavam, como à chuva; e abriam a sua boca, como à chuva tardia.

24Se eu ria para eles, não o criam, e a luz do meu rosto não faziam abater;

25Eu escolhia o seu caminho, assentava-me como chefe, e habitava como rei entre as suas tropas; como aquele que consola os que pranteiam.

Capítulo 30

1AGORA, porém, se riem de mim os de menos idade do que eu, cujos pais eu teria desdenhado de pôr com os cães do meu rebanho.

2De que também me serviria a força das mãos daqueles, cujo vigor se tinha esgotado?

3De míngua e fome se debilitaram; e recolhiam-se para os lugares secos, tenebrosos, assolados e desertos.

4Apanhavam malvas junto aos arbustos, e o seu mantimento eram as raízes dos zimbros.

5Do meio dos homens eram expulsos, e gritavam contra eles, como contra o ladrão;

6Para habitarem nos barrancos dos vales, e nas cavernas da terra e das rochas.

7Bramavam entre os arbustos, e ajuntavam-se debaixo das urtigas.

8Eram filhos de doidos, e filhos de gente sem nome, e da terra foram expulsos.

9Agora, porém, sou a sua canção, e lhes sirvo de provérbio.

10Abominam-me, e fogem para longe de mim, e no meu rosto não se privam de cuspir.

11Porque Deus desatou a sua corda, e me oprimiu, por isso sacudiram de si o freio perante o meu rosto.

12À direita se levantam os moços; empurram os meus pés, e preparam contra mim os seus caminhos de destruição.

13Desbaratam-me o caminho; promovem a minha miséria; contra eles não há ajudador.

14Vêm contra mim como por uma grande brecha, e revolvem-se entre a assolação.

15Sobrevieram-me pavores; como vento perseguem a minha honra, e como nuvem passou a minha felicidade.

16E agora derrama-se em mim a minha alma; os dias da aflição se apoderaram de mim.

17De noite se me traspassam os meus ossos, e os meus nervos não descansam.

18Pela grandeza do meu mal está desfigurada a minha veste, que, como a gola da minha túnica, me cinge.

19Lançou-me na lama, e fiquei semelhante ao pó e à cinza.

20Clamo a ti, porém, tu não me respondes; estou em pé, porém, para mim não atentas.

21Tornaste-te cruel contra mim; com a força da tua mão resistes violentamente.

22Levantas-me sobre o vento, fazes-me cavalgar sobre ele, e derretes-me o ser.

23Porque eu sei que me levarás à morte e à casa do ajuntamento determinada a todos os viventes.

24Porém não estenderá a mão para o túmulo, ainda que eles clamem na sua destruição.

25Porventura não chorei sobre aquele que estava aflito, ou não se angustiou a minha alma pelo necessitado?

26Todavia aguardando eu o bem, então me veio o mal, esperando eu a luz, veio a escuridão.

27As minhas entranhas fervem e não estão quietas; os dias da aflição me surpreendem.

28Denegrido ando, porém não do sol; levantando-me na congregação, clamo por socorro.

29Irmão me fiz dos chacais, e companheiro dos avestruzes.

30Enegreceu-se a minha pele sobre mim, e os meus ossos estão queimados do calor.

31A minha harpa se tornou em luto, e o meu órgão em voz dos que choram.

Capítulo 31

1FIZ aliança com os meus olhos; como, pois, os fixaria numa virgem?

2Que porção teria eu do Deus lá de cima, ou que herança do Todo-Poderoso desde as alturas?

3Porventura não é a perdição para o perverso, o desastre para os que praticam iniqüidade?

4Ou não vê ele os meus caminhos, e não conta todos os meus passos?

5Se andei com falsidade, e se o meu pé se apressou para o engano

6(Pese-me em balanças fiéis, e saberá Deus a minha sinceridade),

7Se os meus passos se desviaram do caminho, e se o meu coração segue os meus olhos, e se às minhas mãos se apegou qualquer coisa,

8Então semeie eu e outro coma, e seja a minha descendência arrancada até à raiz.

9Se o meu coração se deixou seduzir por uma mulher, ou se eu armei traições à porta do meu próximo,

10Então moa minha mulher para outro, e outros se encurvem sobre ela,

11Porque é uma infâmia, e é delito pertencente aos juízes.

12Porque é fogo que consome até à perdição, e desarraigaria toda a minha renda.

13Se desprezei o direito do meu servo ou da minha serva, quando eles contendiam comigo;

14Então que faria eu quando Deus se levantasse? E, inquirindo a causa, que lhe responderia?

15Aquele que me formou no ventre não o fez também a ele? Ou não nos formou do mesmo modo na madre?

16Se retive o que os pobres desejavam, ou fiz desfalecer os olhos da viúva,

17Ou se, sozinho comi o meu bocado, e o órfão não comeu dele

18(Porque desde a minha mocidade cresceu comigo como com seu pai, e fui o guia da viúva desde o ventre de minha mãe),

19Se alguém vi perecer por falta de roupa, e ao necessitado por não ter coberta,

20Se os seus lombos não me abençoaram, se ele não se aquentava com as peles dos meus cordeiros,

21Se eu levantei a minha mão contra o órfão, porquanto na porta via a minha ajuda,

22Então caia do ombro a minha espádua, e separe-se o meu braço do osso.

23Porque o castigo de Deus era para mim um assombro, e eu não podia suportar a sua grandeza.

24Se no ouro pus a minha esperança, ou disse ao ouro fino: Tu és a minha confiança;

25Se me alegrei de que era muita a minha riqueza, e de que a minha mão tinha alcançado muito;

26Se olhei para o sol, quando resplandecia, ou para a lua, caminhando gloriosa,

27E o meu coração se deixou enganar em oculto, e a minha boca beijou a minha mão,

28Também isto seria delito à punição de juízes; pois assim negaria a Deus que está lá em cima.

29Se me alegrei da desgraça do que me tem ódio, e se exultei quando o mal o atingiu

30(Também não deixei pecar a minha boca, desejando a sua morte com maldição);

31Se a gente da minha tenda não disse: Ah! quem nos dará da sua carne? Nunca nos fartaríamos dela.

32O estrangeiro não passava a noite na rua; as minhas portas abria ao viandante.

33Se, como Adão, encobri as minhas transgressões, ocultando o meu delito no meu seio;

34Porque eu temia a grande multidão, e o desprezo das famílias me apavorava, e eu me calei, e não saí da porta;

35Ah! quem me dera um que me ouvisse! Eis que o meu desejo é que o Todo-Poderoso me responda, e que o meu adversário escreva um livro.

36Por certo que o levaria sobre o meu ombro, sobre mim o ataria por coroa.

37O número dos meus passos lhe mostraria; como príncipe me chegaria a ele.

38Se a minha terra clamar contra mim, e se os seus sulcos juntamente chorarem,

39Se comi os seus frutos sem dinheiro, e sufoquei a alma dos seus donos,

40Por trigo me produza cardos, e por cevada joio. Acabaram-se as palavras de Jó.

Capítulo 32

1ENTÃO aqueles três homens cessaram de responder a Jó; porque era justo aos seus próprios olhos.

2E acendeu-se a ira de Eliú, filho de Baraquel, o buzita, da família de Rão; contra Jó se acendeu a sua ira, porque se justificava a si mesmo, mais do que a Deus.

3Também a sua ira se acendeu contra os seus três amigos, porque, não achando que responder, todavia condenavam a Jó.

4Eliú, porém, esperou para falar a Jó, porquanto tinham mais idade do que ele.

5Vendo, pois, Eliú que já não havia resposta na boca daqueles três homens, a sua ira se acendeu.

6E respondeu Eliú, filho de Baraquel, o buzita, dizendo: Eu sou de menos idade, e vós sois idosos; receei-me e temi de vos declarar a minha opinião.

7Dizia eu: Falem os dias, e a multidão dos anos ensine a sabedoria.

8Na verdade, há um espírito no homem, e a inspiração do Todo-Poderoso o faz entendido.

9Os grandes não são os sábios, nem os velhos entendem o que é direito.

10Assim digo: Dai-me ouvidos, e também eu declararei a minha opinião.

11Eis que aguardei as vossas palavras, e dei ouvidos às vossas considerações, até que buscásseis razões.

12Atentando, pois, para vós, eis que nenhum de vós há que possa convencer a Jó, nem que responda às suas razões;

13Para que não digais: Achamos a sabedoria; Deus o derrubou, e não homem algum.

14Ora ele não dirigiu contra mim palavra alguma, nem lhe responderei com as vossas palavras.

15Estão pasmados, não respondem mais, faltam-lhes as palavras.

16Esperei, pois, mas não falam; porque já pararam, e não respondem mais.

17Também eu responderei pela minha parte; também eu declararei a minha opinião.

18Porque estou cheio de palavras; o meu espírito me constrange.

19Eis que dentro de mim sou como o mosto, sem respiradouro, prestes a arrebentar, como odres novos.

20Falarei, para que ache alívio; abrirei os meus lábios, e responderei.

21Que não faça eu acepção de pessoas, nem use de palavras lisonjeiras com o homem!

22Porque não sei usar de lisonjas; em breve me levaria o meu Criador.

Capítulo 33

1ASSIM, na verdade, ó Jó, ouve as minhas razões, e dá ouvidos a todas as minhas palavras.

2Eis que já abri a minha boca; já falou a minha língua debaixo do meu paladar.

3As minhas razões provam a sinceridade do meu coração, e os meus lábios proferem o puro saber.

4O Espírito de Deus me fez; e a inspiração do Todo-Poderoso me deu vida.

5Se podes, responde-me, põe em ordem as tuas razões diante de mim, e apresenta-te.

6Eis que vim de Deus, como tu; do barro também eu fui formado.

7Eis que não te perturbará o meu terror, nem será pesada sobre ti a minha mão.

8Na verdade tu falaste aos meus ouvidos; e eu ouvi a voz das tuas palavras. Dizias:

9Limpo estou, sem transgressão; puro sou, e não tenho iniqüidade.

10Eis que procura pretexto contra mim, e me considera como seu inimigo.

11Põe no tronco os meus pés, e observa todas as minhas veredas.

12Eis que nisso não tens razão; eu te respondo; porque maior é Deus do que o homem.

13Por que razão contendes com ele, sendo que não responde acerca de todos os seus feitos?

14Antes Deus fala uma e duas vezes; porém ninguém atenta para isso.

15Em sonho ou em visão noturna, quando cai sono profundo sobre os homens, e adormecem na cama.

16Então o revela ao ouvido dos homens, e lhes sela a sua instrução,

17Para apartar o homem daquilo que faz, e esconder do homem a soberba.

18Para desviar a sua alma da cova, e a sua vida de passar pela espada.

19Também na sua cama é castigado com dores; e com incessante contenda nos seus ossos;

20De modo que a sua vida abomina até o pão, e a sua alma a comida apetecível.

21Desaparece a sua carne a olhos vistos, e os seus ossos, que não se viam, agora aparecem.

22E a sua alma se vai chegando à cova, e a sua vida aos que trazem a morte.

23Se com ele, pois, houver um mensageiro, um intérprete, um entre milhares, para declarar ao homem a sua retidão,

24Então terá misericórdia dele, e lhe dirá: Livra-o, para que não desça à cova; já achei resgate.

25Sua carne se reverdecerá mais do que era na mocidade, e tornará aos dias da sua juventude.

26Deveras orará a Deus, o qual se agradará dele, e verá a sua face com júbilo, e restituirá ao homem a sua justiça.

27Olhará para os homens, e dirá: Pequei, e perverti o direito, o que de nada me aproveitou.

28Porém Deus livrou a minha alma de ir para a cova, e a minha vida verá a luz.

29Eis que tudo isto é obra de Deus, duas e três vezes para com o homem,

30Para desviar a sua alma da perdição, e o iluminar com a luz dos viventes.

31Escuta, pois, ó Jó, ouve-me; cala-te, e eu falarei.

32Se tens alguma coisa que dizer, responde-me; fala, porque desejo justificar-te.

33Se não, escuta-me tu; cala-te, e ensinar-te-ei a sabedoria.

Capítulo 34

1RESPONDEU mais Eliú, dizendo:

2Ouvi, vós, sábios, as minhas razões; e vós, entendidos, inclinai os ouvidos para mim.

3Porque o ouvido prova as palavras, como o paladar experimenta a comida.

4O que é direito escolhamos para nós; e conheçamos entre nós o que é bom.

5Porque Jó disse: Sou justo, e Deus tirou o meu direito.

6Apesar do meu direito sou considerado mentiroso; a minha ferida é incurável, embora eu esteja sem transgressão.

7Que homem há como Jó, que bebe a zombaria como água?

8E caminha em companhia dos que praticam a iniqüidade, e anda com homens ímpios?

9Porque disse: De nada aproveita ao homem o comprazer-se em Deus.

10Portanto vós, homens de entendimento, escutai-me: Longe de Deus esteja o praticar a maldade e do Todo-Poderoso o cometer a perversidade!

11Porque, segundo a obra do homem, ele lhe paga; e faz a cada um segundo o seu caminho.

12Também, na verdade, Deus não procede impiamente; nem o Todo-Poderoso perverte o juízo.

13Quem lhe entregou o governo da terra? E quem fez todo o mundo?

14Se ele pusesse o seu coração contra o homem, e recolhesse para si o seu espírito e o seu fôlego,

15Toda a carne juntamente expiraria, e o homem voltaria para o pó.

16Se, pois, há em ti entendimento, ouve isto; inclina os ouvidos ao som da minha palavra.

17Porventura o que odiasse o direito se firmaria? E tu condenarias aquele que é justo e poderoso?

18Ou dir-se-á a um rei: Oh! vil? Ou aos príncipes: Oh! ímpios?

19Quanto menos àquele, que não faz acepção das pessoas de príncipes, nem estima o rico mais do que o pobre; porque todos são obras de suas mãos.

20Eles num momento morrem; e até à meia noite os povos são perturbados, e passam, e os poderosos serão tomados não por mão humana.

21Porque os seus olhos estão sobre os caminhos de cada um, e ele vê todos os seus passos.

22Não há trevas nem sombra de morte, onde se escondam os que praticam a iniqüidade.

23Porque Deus não sobrecarrega o homem mais do que é justo, para o fazer ir a juízo diante dele.

24Quebranta aos fortes, sem que se possa inquirir, e põe outros em seu lugar.

25Ele conhece, pois, as suas obras; de noite os transtorna, e ficam moídos.

26Ele os bate como ímpios que são, à vista dos espectadores;

27Porquanto se desviaram dele, e não compreenderam nenhum de seus caminhos,

28De sorte que o clamor do pobre subisse até ele, e que ouvisse o clamor dos aflitos.

29Se ele aquietar, quem então inquietará? Se encobrir o rosto, quem então o poderá contemplar? Seja isto para com um povo, seja para com um homem só,

30Para que o homem hipócrita nunca mais reine, e não haja laços no povo.

31Na verdade, quem a Deus disse: Suportei castigo, não ofenderei mais.

32O que não vejo, ensina-me tu; se fiz alguma maldade, nunca mais a hei de fazer?

33Virá de ti como há de ser a recompensa, para que tu a rejeites? Faze tu, pois, e não eu, a escolha; fala logo o que sabes.

34Os homens de entendimento dirão comigo, e o homem sábio que me ouvir:

35Jó falou sem conhecimento; e às suas palavras falta prudência.

36Pai meu! Provado seja Jó até ao fim, pelas suas respostas próprias de homens malignos.

37Porque ao seu pecado acrescenta a transgressão; entre nós bate palmas, e multiplica contra Deus as suas palavras.

Capítulo 35

1RESPONDEU mais Eliú, dizendo:

2Tens por direito dizeres: Maior é a minha justiça do que a de Deus?

3Porque disseste: De que me serviria? Que proveito tiraria mais do que do meu pecado?

4Eu te darei resposta, a ti e aos teus amigos contigo.

5Atenta para os céus, e vê; e contempla as mais altas nuvens, que são mais altas do que tu.

6Se pecares, que efetuarás contra ele? Se as tuas transgressões se multiplicarem, que lhe farás?

7Se fores justo, que lhe darás, ou que receberá ele da tua mão?

8A tua impiedade faria mal a outro tal como tu; e a tua justiça aproveitaria ao filho do homem.

9Por causa das muitas opressões os homens clamam por causa do braço dos grandes.

10Porém ninguém diz: Onde está Deus que me criou, que dá salmos durante a noite;

11Que nos ensina mais do que aos animais da terra e nos faz mais sábios do que as aves dos céus?

12Clamam, porém ele não responde, por causa da arrogância dos maus.

13Certo é que Deus não ouvirá a vaidade, nem atentará para ela o Todo-Poderoso.

14E quanto ao que disseste, que o não verás, juízo há perante ele; por isso espera nele.

15Mas agora, porque a sua ira ainda não se exerce, nem grandemente considera a arrogância,

16Logo Jó em vão abre a sua boca, e sem ciência multiplica palavras.

Capítulo 36

1PROSSEGUIU ainda Eliú, e disse:

2Espera-me um pouco, e mostrar-te-ei que ainda há razões a favor de Deus.

3De longe trarei o meu conhecimento; e ao meu Criador atribuirei a justiça.

4Porque na verdade, as minhas palavras não serão falsas; contigo está um que tem perfeito conhecimento.

5Eis que Deus é mui grande, contudo a ninguém despreza; grande é em força e sabedoria.

6Ele não preserva a vida do ímpio, e faz justiça aos aflitos.

7Do justo não tira os seus olhos; antes estão com os reis no trono; ali os assenta para sempre, e assim são exaltados.

8E se estão presos em grilhões, amarrados com cordas de aflição,

9Então lhes faz saber a obra deles, e as suas transgressões, porquanto prevaleceram nelas.

10Abre-lhes também os seus ouvidos, para sua disciplina, e ordena-lhes que se convertam da maldade.

11Se o ouvirem, e o servirem, acabarão seus dias em bem, e os seus anos em delícias.

12Porém se não o ouvirem, à espada serão passados, e expirarão sem conhecimento.

13E os hipócritas de coração amontoam para si a ira; e amarrando-os ele, não clamam por socorro.

14A sua alma morre na mocidade, e a sua vida perece entre os impuros.

15Ao aflito livra da sua aflição, e na opressão se revela aos seus ouvidos.

16Assim também te desviará da boca da angústia para um lugar espaçoso, em que não há aperto, e as iguarias da tua mesa serão cheias de gordura.

17Mas tu estás cheio do juízo do ímpio; o juízo e a justiça te sustentam.

18Porquanto há furor, guarda-te de que não sejas atingido pelo castigo violento, pois nem com resgate algum te livrarias dele.

19Estimaria ele tanto tuas riquezas? Não, nem ouro, nem todas as forças do poder.

20Não suspires pela noite, em que os povos sejam tomados do seu lugar.

21Guarda-te, e não declines para a iniqüidade; porquanto isso escolheste antes que a aflição.

22Eis que Deus é excelso em seu poder; quem ensina como ele?

23Quem lhe prescreveu o seu caminho? Ou, quem lhe dirá: Tu cometeste maldade?

24Lembra-te de engrandecer a sua obra, que os homens contemplam.

25Todos os homens a vêem, e o homem a enxerga de longe.

26Eis que Deus é grande, e nós não o compreendemos, e o número dos seus anos não se pode esquadrinhar.

27Porque faz miúdas as gotas das águas que, do seu vapor, derramam a chuva,

28A qual as nuvens destilam e gotejam sobre o homem abundantemente.

29Porventura pode alguém entender as extensões das nuvens, e os estalos da sua tenda?

30Eis que estende sobre elas a sua luz, e encobre as profundezas do mar.

31Porque por estas coisas julga os povos e lhes dá mantimento em abundância.

32Com as nuvens encobre a luz, e ordena não brilhar, interpondo a nuvem.

33O que nos dá a entender o seu pensamento, como também ao gado, acerca do temporal que sobe.

Capítulo 37

1SOBRE isto também treme o meu coração, e salta do seu lugar.

2Atentamente ouvi a indignação da sua voz, e o sonido que sai da sua boca.

3Ele o envia por debaixo de todos os céus, e a sua luz até aos confins da terra.

4Depois disto ruge uma voz; ele troveja com a sua voz majestosa; e ele não os detém quando a sua voz é ouvida.

5Com a sua voz troveja Deus maravilhosamente; faz grandes coisas, que nós não podemos compreender.

6Porque à neve diz: Cai sobre a terra; como também à garoa e à sua forte chuva.

7Ele sela as mãos de todo o homem, para que conheçam todos os homens a sua obra.

8E as feras entram nos seus esconderijos e ficam nas suas cavernas.

9Da recâmara do sul sai o tufão, e do norte o frio.

10Pelo sopro de Deus se dá a geada, e as largas águas se congelam.

11Também de umidade carrega as grossas nuvens, e esparge as nuvens com a sua luz.

12Então elas, segundo o seu prudente conselho, se espalham em redor, para que façam tudo quanto lhes ordena sobre a superfície do mundo na terra.

13Seja que por vara, ou para a sua terra, ou por misericórdia as faz vir.

14A isto, ó Jó, inclina os teus ouvidos; para, e considera as maravilhas de Deus.

15Porventura sabes tu como Deus as opera, e faz resplandecer a luz da sua nuvem?

16Tens tu notícia do equilíbrio das grossas nuvens e das maravilhas daquele que é perfeito nos conhecimentos?

17Ou de como as tuas roupas aquecem, quando do sul há calma sobre a terra?

18Ou estendeste com ele os céus, que estão firmes como espelho fundido?

19Ensina-nos o que lhe diremos: porque nós nada poderemos pôr em boa ordem, por causa das trevas.

20Contar-lhe-ia alguém o que tenho falado? Ou desejaria um homem que ele fosse devorado?

21E agora não se pode olhar para o sol, que resplandece nas nuvens, quando o vento, tendo passado, o deixa limpo.

22O esplendor de ouro vem do norte; pois, em Deus há uma tremenda majestade.

23Ao Todo-Poderoso não podemos alcançar; grande é em poder; porém a ninguém oprime em juízo e grandeza de justiça.

24Por isso o temem os homens; ele não respeita os que se julgam sábios de coração.

Capítulo 38

1DEPOIS disto o SENHOR respondeu a Jó de um redemoinho, dizendo:

2Quem é este que escurece o conselho com palavras sem conhecimento?

3Agora cinge os teus lombos, como homem; e perguntar-te-ei, e tu me ensinarás.

4Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? Faze-mo saber, se tens inteligência.

5Quem lhe pôs as medidas, se é que o sabes? Ou quem estendeu sobre ela o cordel?

6Sobre que estão fundadas as suas bases, ou quem assentou a sua pedra de esquina,

7Quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e todos os filhos de Deus jubilavam?

8Ou quem encerrou o mar com portas, quando este rompeu e saiu da madre;

9Quando eu pus as nuvens por sua vestidura, e a escuridão por faixa?

10Quando eu lhe tracei limites, e lhe pus portas e ferrolhos,

11E disse: Até aqui virás, e não mais adiante, e aqui se parará o orgulho das tuas ondas?

12Ou desde os teus dias deste ordem à madrugada, ou mostraste à alva o seu lugar;

13Para que pegasse nas extremidades da terra, e os ímpios fossem sacudidos dela;

14E se transformasse como o barro sob o selo, e se pusessem como vestidos;

15E dos ímpios se desvie a sua luz, e o braço altivo se quebrante;

16Ou entraste tu até às origens do mar, ou passeaste no mais profundo do abismo?

17Ou descobriram-se-te as portas da morte, ou viste as portas da sombra da morte?

18Ou com o teu entendimento chegaste às larguras da terra? Faze-mo saber, se sabes tudo isto.

19Onde está o caminho onde mora a luz? E, quanto às trevas, onde está o seu lugar;

20Para que as tragas aos seus limites, e para que saibas as veredas da sua casa?

21De certo tu o sabes, porque já então eras nascido, e por ser grande o número dos teus dias!

22Ou entraste tu até aos tesouros da neve, e viste os tesouros da saraiva,

23Que eu retenho até ao tempo da angústia, até ao dia da peleja e da guerra?

24Onde está o caminho em que se reparte a luz, e se espalha o vento oriental sobre a terra?

25Quem abriu para a inundação um leito, e um caminho para os relâmpagos dos trovões,

26Para chover sobre a terra, onde não há ninguém, e no deserto, em que não há homem;

27Para fartar a terra deserta e assolada, e para fazer crescer os renovos da erva?

28A chuva porventura tem pai? Ou quem gerou as gotas do orvalho?

29De que ventre procedeu o gelo? E quem gerou a geada do céu?

30Como debaixo de pedra as águas se endurecem, e a superfície do abismo se congela.

31Ou poderás tu ajuntar as delícias do Sete-estrelo ou soltar os cordéis do Órion?

32Ou produzir as constelações a seu tempo, e guiar a Ursa com seus filhos?

33Sabes tu as ordenanças dos céus, ou podes estabelecer o domínio deles sobre a terra?

34Ou podes levantar a tua voz até às nuvens, para que a abundância das águas te cubra?

35Ou mandarás aos raios para que saiam, e te digam: Eis-nos aqui?

36Quem pôs a sabedoria no íntimo, ou quem deu à mente o entendimento?

37Quem numerará as nuvens com sabedoria? Ou os odres dos céus, quem os esvaziará,

38Quando se funde o pó numa massa, e se apegam os torrões uns aos outros?

39Porventura caçarás tu presa para a leoa, ou saciarás a fome dos filhos dos leões,

40Quando se agacham nos covis, e estão à espreita nas covas?

41Quem prepara aos corvos o seu alimento, quando os seus filhotes gritam a Deus e andam vagueando, por não terem o que comer?

Capítulo 39

1SABES tu o tempo em que as cabras montesas têm filhos, ou observastes as cervas quando dão suas crias?

2Contarás os meses que cumprem, ou sabes o tempo do seu parto?

3Quando se encurvam, produzem seus filhos, e lançam de si as suas dores.

4Seus filhos enrijam, crescem com o trigo; saem, e nunca mais tornam para elas.

5Quem despediu livre o jumento montês, e quem soltou as prisões ao jumento bravo,

6Ao qual dei o ermo por casa, e a terra salgada por morada?

7Ri-se do ruído da cidade; não ouve os muitos gritos do condutor.

8A região montanhosa é o seu pasto, e anda buscando tudo que está verde.

9Ou, querer-te-á servir o boi selvagem? Ou ficará no teu curral?

10Ou com corda amarrarás, no arado, ao boi selvagem? Ou escavará ele os vales após ti?

11Ou confiarás nele, por ser grande a sua força, ou deixarás a seu cargo o teu trabalho?

12Ou fiarás dele que te torne o que semeaste e o recolha na tua eira?

13A avestruz bate alegremente as suas asas, porém, são benignas as suas asas e penas?

14Ela deixa os seus ovos na terra, e os aquenta no pó,

15E se esquece de que algum pé os pode pisar, ou que os animais do campo os podem calcar.

16Endurece-se para com seus filhos, como se não fossem seus; debalde é seu trabalho, mas ela está sem temor,

17Porque Deus a privou de sabedoria, e não lhe deu entendimento.

18A seu tempo se levanta ao alto; ri-se do cavalo, e do que vai montado nele.

19Ou darás tu força ao cavalo, ou revestirás o seu pescoço com crinas?

20Ou espantá-lo-ás, como ao gafanhoto? Terrível é o fogoso respirar das suas ventas.

21Escarva a terra, e folga na sua força, e sai ao encontro dos armados.

22Ri-se do temor, e não se espanta, e não torna atrás por causa da espada.

23Contra ele rangem a aljava, o ferro flamante da lança e do dardo.

24Agitando-se e indignando-se, serve a terra, e não faz caso do som da buzina.

25Ao soar das buzinas diz: Eia! E cheira de longe a guerra, e o trovão dos capitães, e o alarido.

26Ou voa o gavião pela tua inteligência, e estende as suas asas para o sul?

27Ou se remonta a águia ao teu mandado, e põe no alto o seu ninho?

28Nas penhas mora e habita; no cume das penhas, e nos lugares seguros.

29Dali descobre a presa; seus olhos a avistam de longe.

30E seus filhos chupam o sangue, e onde há mortos, ali está ela.

Capítulo 40

1RESPONDEU mais o SENHOR a Jó, dizendo:

2Porventura o contender contra o Todo-Poderoso é sabedoria? Quem argüi assim a Deus, responda por isso.

3Então Jó respondeu ao SENHOR, dizendo:

4Eis que sou vil; que te responderia eu? A minha mão ponho à boca.

5Uma vez tenho falado, e não replicarei; ou ainda duas vezes, porém não prosseguirei.

6Então o SENHOR respondeu a Jó de um redemoinho, dizendo:

7Cinge agora os teus lombos como homem; eu te perguntarei, e tu me explicarás.

8Porventura também tornarás tu vão o meu juízo, ou tu me condenarás, para te justificares?

9Ou tens braço como Deus, ou podes trovejar com voz como ele o faz?

10Orna-te, pois, de excelência e alteza; e veste-te de majestade e de glória.

11Derrama os furores da tua ira, e atenta para todo o soberbo, e abate-o.

12Olha para todo o soberbo, e humilha-o, e atropela os ímpios no seu lugar.

13Esconde-os juntamente no pó; ata-lhes os rostos em oculto.

14Então também eu a ti confessarei que a tua mão direita te poderá salvar.

15Contemplas agora o beemote, que eu fiz contigo, que come a erva como o boi.

16Eis que a sua força está nos seus lombos, e o seu poder nos músculos do seu ventre.

17Quando quer, move a sua cauda como cedro; os nervos das suas coxas estão entretecidos.

18Os seus ossos são como tubos de bronze; a sua ossada é como barras de ferro.

19Ele é obra-prima dos caminhos de Deus; o que o fez o proveu da sua espada.

20Em verdade os montes lhe produzem pastos, onde todos os animais do campo folgam.

21Deita-se debaixo das árvores sombrias, no esconderijo das canas e da lama.

22As árvores sombrias o cobrem, com sua sombra; os salgueiros do ribeiro o cercam.

23Eis que um rio transborda, e ele não se apressa, confiando ainda que o Jordão se levante até à sua boca.

24Podê-lo-iam porventura caçar à vista de seus olhos, ou com laços lhe furar o nariz?

Capítulo 41

1PODERÁS tirar com anzol o leviatã, ou ligarás a sua língua com uma corda?

2Podes pôr um anzol no seu nariz, ou com um gancho furar a sua queixada?

3Porventura multiplicará as súplicas para contigo, ou brandamente falará?

4Fará ele aliança contigo, ou o tomarás tu por servo para sempre?

5Brincarás com ele, como se fora um passarinho, ou o prenderás para tuas meninas?

6Os teus companheiros farão dele um banquete, ou o repartirão entre os negociantes?

7Encherás a sua pele de ganchos, ou a sua cabeça com arpões de pescadores?

8Põe a tua mão sobre ele, lembra-te da peleja, e nunca mais tal intentarás.

9Eis que é vã a esperança de apanhá-lo; pois não será o homem derrubado só ao vê-lo?

10Ninguém há tão atrevido, que a despertá-lo se atreva; quem, pois, é aquele que ousa erguer-se diante de mim?

11Quem primeiro me deu, para que eu haja de retribuir-lhe? Pois o que está debaixo de todos os céus é meu.

12Não me calarei a respeito dos seus membros, nem da sua grande força, nem a graça da sua compostura.

13Quem descobrirá a face da sua roupa? Quem entrará na sua couraça dobrada?

14Quem abrirá as portas do seu rosto? Pois ao redor dos seus dentes está o terror.

15As suas fortes escamas são o seu orgulho, cada uma fechada como com selo apertado.

16Uma à outra se chega tão perto, que nem o ar passa por entre elas.

17Umas às outras se ligam; tanto aderem entre si, que não se podem separar.

18Cada um dos seus espirros faz resplandecer a luz, e os seus olhos são como as pálpebras da alva.

19Da sua boca saem tochas; faíscas de fogo saltam dela.

20Das suas narinas procede fumaça, como de uma panela fervente, ou de uma grande caldeira.

21O seu hálito faz incender os carvões; e da sua boca sai chama.

22No seu pescoço reside a força; diante dele até a tristeza salta de prazer.

23Os músculos da sua carne estão pegados entre si; cada um está firme nele, e nenhum se move.

24O seu coração é firme como uma pedra e firme como a mó de baixo.

25Levantando-se ele, tremem os valentes; em razão dos seus abalos se purificam.

26Se alguém lhe tocar com a espada, essa não poderá penetrar, nem lança, dardo ou flecha.

27Ele considera o ferro como palha, e o cobre como pau podre.

28A seta o não fará fugir; as pedras das fundas se lhe tornam em restolho.

29As pedras atiradas são para ele como arestas, e ri-se do brandir da lança;

30Debaixo de si tem conchas pontiagudas; estende-se sobre coisas pontiagudas como na lama.

31As profundezas faz ferver, como uma panela; torna o mar como uma vasilha de ungüento.

32Após si deixa uma vereda luminosa; parece o abismo tornado em brancura de cãs.

33Na terra não há coisa que se lhe possa comparar, pois foi feito para estar sem pavor.

34Ele vê tudo que é alto; é rei sobre todos os filhos da soberba.

Capítulo 42

1ENTÃO respondeu Jó ao SENHOR, dizendo:

2Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido.

3Quem é este, que sem conhecimento encobre o conselho? Por isso relatei o que não entendia; coisas que para mim eram inescrutáveis, e que eu não entendia.

4Escuta-me, pois, e eu falarei; eu te perguntarei, e tu me ensinarás.

5Com o ouvir dos meus ouvidos ouvi, mas agora te vêem os meus olhos.

6Por isso me abomino e me arrependo no pó e na cinza.

7Sucedeu que, acabando o SENHOR de falar a Jó aquelas palavras, o SENHOR disse a Elifaz, o temanita: A minha ira se acendeu contra ti, e contra os teus dois amigos, porque não falastes de mim o que era reto, como o meu servo Jó.

8Tomai, pois, sete bezerros e sete carneiros, e ide ao meu servo Jó, e oferecei holocaustos por vós, e o meu servo Jó orará por vós; porque deveras a ele aceitarei, para que eu não vos trate conforme a vossa loucura; porque vós não falastes de mim o que e

9Então foram Elifaz, o temanita, e Bildade, o suíta, e Zofar, o naamatita, e fizeram como o SENHOR lhes dissera; e o SENHOR aceitou a face de Jó.

10E o SENHOR virou o cativeiro de Jó, quando orava pelos seus amigos; e o SENHOR acrescentou, em dobro, a tudo quanto Jó antes possuía.

11Então vieram a ele todos os seus irmãos, e todas as suas irmãs, e todos quantos dantes o conheceram, e comeram com ele pão em sua casa, e se condoeram dele, e o consolaram acerca de todo o mal que o SENHOR lhe havia enviado; e cada um deles lhe deu uma p

12E assim abençoou o SENHOR o último estado de Jó, mais do que o primeiro; pois teve catorze mil ovelhas, e seis mil camelos, e mil juntas de bois, e mil jumentas.

13Também teve sete filhos e três filhas.

14E chamou o nome da primeira Jemima, e o nome da segunda Quezia, e o nome da terceira Quéren-Hapuque.

15E em toda a terra não se acharam mulheres tão formosas como as filhas de Jó; e seu pai lhes deu herança entre seus irmãos.

16E depois disto viveu Jó cento e quarenta anos; e viu a seus filhos, e aos filhos de seus filhos, até à quarta geração.

17Então morreu Jó, velho e farto de dias.